O som do silêncio
relatos de uma deficiente auditiva
por innerzpace•5 min de leitura

Hoje decidi falar sobre a minha deficiência auditiva.
Confesso que levei anos para, de fato, me aceitar como deficiente auditiva. Para parar de fingir que eu conseguiria viver como uma ouvinte no meio de outros ouvintes. Para finalmente abrir espaço para a vulnerabilidade de admitir: algumas coisas são, sim, mais difíceis para mim.
Descobri que precisava usar aparelhos auditivos durante a pandemia. Estava assistindo ao jornal com o volume consideravelmente alto e, mesmo assim, percebi que não entendia o que estava sendo falado.
Minha primeira parada foi uma fonoaudióloga. Fiz uma audiometria gratuita e ela me disse que eu estava “ruim da audição” porque ouvia música alta no fone de ouvido.
Capaz.
Depois disso, fui ao otorrino, que pediu exame de sangue, ressonância, audiometria e mais uma coleção de exames que pareciam ter sido inventados especificamente para me deixar ansiosa.
Laudo: perda auditiva bilateral de grau severo.
Causa: rubéola.
OI?
R-U-B-É-O-L-A?!
Na minha cabeça, rubéola era uma doença pré-histórica, tipo caxumba. Mas o exame estava ali, dizendo ao médico que, em algum momento da minha vida, eu tinha tido rubéola.
A explicação era que a infecção viral havia causado a perda auditiva, que foi acontecendo de forma gradual. E foi justamente por ser gradual que eu só descobri aos 20 anos de idade. Eu simplesmente fui me adaptando, sem perceber que estava me adaptando.
Laudo: check.
Causa: check.
Aparelho auditivo: error: money not found.
A primeira empresa de aparelhos auditivos que procurei me ofereceu um teste gratuito de uma semana.
Na primeira vez que coloquei os aparelhos, me emocionei com o som do papel higiênico. Me assustei com a descarga. Me emocionei de novo com as folhas das árvores. Me assustei com o liquidificador. Me emocionei descobrindo o som do vento. Me assustei com o trânsito.
E foi assim por muito tempo.
Até hoje, seis anos depois, ainda descubro novos sons.
O problema era que o par de aparelhos custava entre 10 e 15 mil reais.
Postei no Twitter o quanto estava feliz fazendo o teste e ouvindo coisas novas, mas também o quanto estava desolada por ter que juntar todo aquele dinheiro.
Então o universo, e, principalmente, a internet, foi muito gentil comigo.
O post viralizou. Uma vaquinha foi criada. Em dois dias, eu tinha conseguido 12 mil reais.
Comprei meu par.
E chorei muito.
Na época, compartilhei todo o processo de adaptação e fui respondendo às dúvidas de quem acompanhava tudo. Fiz muitos amigos deficientes auditivos, conheci pessoas que entendiam exatamente algumas coisas que eu estava vivendo e, de quebra, até recebi brinde da marca que escolhi.
Eu achava que o aparelho auditivo resolveria meus problemas.
Bastava usar e pronto.
Eu estava funcionando de novo.
Só que não.
Com o tempo, percebi que estava fazendo outra coisa: mascarando a minha perda auditiva.
Eu não entendia alguma coisa e concordava mesmo assim. Ria junto com a galera para não me sentir isolada. Fingia que tinha entendido uma conversa. Evitava falar dos aparelhos para não receber um tratamento diferente.
E, de tão acostumada a fazer isso, eu nem percebia mais.
Era solitário. Mas eu achava que era normal.
Até alguém enxergar tudo aquilo que eu mesma não estava conseguindo enxergar.
O Filipe chegou e me mostrou que passar a vida inteira mascarando a minha deficiência não estava me aproximando das pessoas. Estava me afastando delas.
Ele me ajudou a entender que eu era, sim, uma pessoa com deficiência auditiva. E que isso não era algo que eu precisava esconder ou compensar o tempo inteiro.
Eu precisava de adaptações.
Precisava dizer quando não tinha entendido.
Precisava pedir para repetirem.
Precisava explicar como poderiam falar comigo.
Precisava, principalmente, permitir que as pessoas soubessem como me alcançar.
E isso mudou muita coisa.
Quando parei de tentar parecer uma ouvinte o tempo inteiro, comecei a conseguir viver muito mais como eu mesma.
Vieram novas amizades, novas oportunidades de trabalho, novas experiências e, principalmente, uma outra maneira de enxergar a minha própria vida.
Hoje eu ainda me irrito. Ainda tem conversa que eu não entendo. Ainda existem lugares em que o barulho me vence, pessoas que esquecem de falar olhando para mim e situações em que eu me sinto deslocada.
O aparelho auditivo não apagou a deficiência. E, sinceramente, acho que aceitar isso foi uma das partes mais importantes do processo.
Porque aceitar não significou achar tudo fácil.
Significou parar de gastar tanta energia tentando esconder o que eu precisava.
Durante muito tempo, achei que aceitar a minha deficiência seria admitir uma limitação.
Hoje, para mim, é quase o contrário.
É me permitir dizer “não entendi” sem sentir vergonha.
É pedir uma legenda.
É pedir para alguém repetir.
É explicar o que eu preciso.
É deixar que as pessoas se adaptem a mim também, porque adaptação não deveria ser uma via de mão única.
E talvez seja por isso que, olhando para trás, eu consiga sentir orgulho.
Não porque eu “venci” a deficiência auditiva, eu não venci, e ela continua fazendo parte de mim.
Mas porque finalmente parei de lutar contra a ideia de ser quem eu sou.
Ainda estou aprendendo a ouvir.
Mas, principalmente, estou aprendendo a não ter vergonha de dizer quando não consigo.
Dúvidas? Me envie uma mensagem!
Um beijo e um queijo ;)
